A importância do ambinte familiar
A importância do ambiente familiar

“O objetivo do cuidado dispensado à criança não é apenas produzir uma criança saudável, mas também, permitir que o desenvolvimento máximo de um adulto saudável seja alcançado. A saúde mental de cada criança é estabelecida pela mãe durante sua preocupação com o cuidado de seu bebê. A saúde mental, portanto é um produto do cuidado contínuo que torna possível uma continuidade do crescimento emocional pessoal” (D. W. Winnicott, 1993) .

Quando um bebê nasce é inserido no mundo externo e ao ser atravessado por isso passará a interagir com a realidade. Dentre vários aspectos dessa realidade nos deteremos no tema do “ambiente”. O bebê percebe, através dos recursos próprios do seu corpo (ambiente interno) e do corpo do outro que o apresenta a esse ambiente; se este, o ambiente, transmite-lhe segurança, tranqüilidade, acolhimento, desconforto, desprazer, excesso de ruídos, espaço físico conturbado, etc., o bebê sente isso, ele percebe e vai reagir a esse ambiente de acordo com a forma que ele é afetado e atravessado por essa realidade. É este conjunto de fatores que a realidade e o ambiente oferecem que permitirá ao bebê construir o seu mundo interno. Portanto, ambiente interno e ambiente externo, se é que podemos falar assim, estão profundamente fusionados e entrelaçados. Existem outros fatores tão fundamentais quanto o “ambiente”, mas nos deteremos aqui no tema do “ambiente”, no papel que ele representa e o que ele reflete e contém.
É no ambiente familiar, juntamente com a presença da mãe que o bebê organiza seu mundo e se estrutura psiquicamente. O ambiente familiar é cenário para constituirmos as nossas identidades. É esse ambiente que prepara a criança para ampliar suas relações com o mundo. Se ocorrerem falhas, significativas, no ambiente, o processo identificatório será afetado, trazendo conseqüências na aquisição de novos laços sociais e afetivos. As diferentes formas que o bebê tem de se relacionar com os outros e com o mundo estarão marcadas pelo seu convívio e pelo seu ambiente primordial.

Pensar no ambiente é também pensar na forma como as famílias tentam se organizar para dar conta do seu cotidiano, na sociedade contemporânea.

Estamos cientes de que as condições de vivência e sobrevivência no mundo moderno têm contribuído, e muito, para sérias privações no mundo familiar. Se por um lado é possível perceber o ritmo “frenético” da sociedade atual podemos nos dar conta, também, do quanto às famílias e as crianças tornam-se refém dele. Ao refletirmos sobre essa realidade é possível identificarmos nestas novas configurações ou novos modos de organização, algumas questões que são determinantes para e no desenvolvimento do bebê. São elas:

1- Muitas vezes o berçário/creche é visto e tido pelos pais como uma substituição do lar, da família, etc. Na verdade não é. A Escola tem um “valor suplementar”, ou seja, ela é um complemento. Por mais tempo que um bebê fique em um berçário/creche não se deve esquecer que o seu desenvolvimento está assentado, principalmente, no vínculo desse bebê com os pais, em especial com a mãe. Sabemos que um bebê já existe, quando ele é sonhado pelos pais, antes de vir ao mundo. Até porque a criança passa um tempo no berçário/creche, é importante que os pais possam estruturar e organizar o ambiente para estar com seu bebê.

2- Se as novas configurações do mundo familiar e o ambiente social contribuem para que os pais fiquem mais afastados e distantes de seus filhos é importantíssimo que eles possam reinventar o seu cotidiano, priorizando um tipo de organização que inclua seu bebê e não que potencialize esse afastamento, que por si só é inevitável. A presença dos pais faz parte do desenvolvimento e é estruturante para a criança. A participação dos pais é uma peça fundamental no ambiente e os encontros precisam ser privilegiados. Isto é sagrado! Aqui não podemos deixar de considerar o fator “tempo”. É necessário ter-se tempo, ter tempo para os filhos. Se os pais não tiverem tempo para os seus filhos isto interferirá, diretamente, no tempo da criança. Tempo este de olhar, de procurar o outro, de encontrar o outro, de balbuciar, de fazer sons imitando alguém, de aprender a falar com e para o outro, tempo de observar as mudanças no corpo, no desenvolvimento de seu bebê; este tempo é fundante!

3- Muitos pais, principalmente as mães, sentem-se culpados por terem que deixar seus filhos em instituições, durante uma boa parte do dia. As mães, principalmente, se sentem insuficientes e “más” quando os deixam por um período de tempo significativo. Porém, quando pegam seus filhos na instituição sofrem, também, por não terem disposição física nem disponibilidade afetiva para estar com seu bebê, como gostariam. Isto pode ser considerado um sintoma e demonstra o nível de conflito que essas mães vivem ao terem que trabalhar e serem mães ao mesmo tempo, mas qual será a medida? Que recursos nós temos para cuidar, o melhor possível, desses momentos? As câmeras da escola não dão conta de apaziguar, plenamente, a falta que a distância impõe, neste período de espera. Os pais podem e devem pensar numa forma de planejar seu cotidiano tendo como prioridade a organização do ambiente, que é: ter um tempo disponível para estar com seu filho, organizar as tarefas do cotidiano, priorizar um tempo de lazer para os próprios pais, cuidar da alimentação devendo seguir uma rotina própria e orientada, priorizar os espaços lúdicos, estes precisam ser contemplados, definir horário para as atividades, criar um ambiente tranqüilizador para o bebê, ele precisa disso, orientar os cuidadores, algumas atividades obrigatórias como o banho, higiene do bebê, alimentação, sono e lazer precisam ser organizadas da melhor forma possível para que se tornem agradáveis para a criança e não um transtorno, etc.

4- O segmento infantil tem sido um forte alvo para os fabricantes de brinquedos. Os brinquedos estão cada vez mais automatizados, estimulando as crianças a brincarem mais sozinhas e explorarem menos a sua capacidade criativa e seus sentidos.. Brincar é construir, desconstruir, inventar e reinventar, socializar, compartilhar com o outro, é viver uma experiência de independência,etc. Não adianta uma criança ter muitos brinquedos se ela não tem com quem brincar. Não é à toa que os “brinquedos invisíveis” (histórias, cantiga de roda, marionetes, etc.) estão mais ausentes no contexto familiar. Brincar com os filhos pode ser uma forma de múltiplos resgates, inclusive “o lúdico” para os pais. Brinquem mais!

Como diz o famoso pediatra e psicanalista inglês, Donald W. Winnicott, “tudo começa em casa”.

Vera Meirelles

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