IDA PARA O BERÇÁRIO – Uma das separações que o bebê vive!
Dando continuidade ao tema do 'Brincar'

Às vezes somos tão capturados pela realidade, ficamos tão tomados pelos afazeres do dia a dia, pelos compromissos inadiáveis, pelas demandas extras do trabalho, etc., que deixamos escapar coisas, importantes, sem nos darmos conta do quanto elas podem contribuir para uma vida melhor para o bebê e seu processo de adaptação ao mundo.

A nossa ênfase será sobre o tema da “separação”, o que implica para o bebê quando se separa da sua mãe, do seu pai, da sua casa, do seu ambiente protetor e vai ter que se ambientar em outro espaço, outro universo, completamente inédito.
Alguns autores falam que o bebê passa por algumas separações naturais, na vida; a primeira seria o nascimento, depois o desmame e posteriormente a separação da mãe, em direção ao mundo externo. Por ocorrerem nos primeiros anos de vida elas são determinantes. Após nascer, o bebê já tem que lidar com uma mudança, intensa, de ambiente, adaptação no processo de amamentação, posteriormente, sua ida para o berçário e depois vem o desmame que também marca a separação do corpo da criança do corpo da mãe, esta é uma outra separação! Mesmo considerando que as mães vão até o berçário amamentar seus filhos, por um bom período de tempo, o que é maravilhoso, não podemos deixar de registrar que ocorre uma separação entre o bebê e sua mãe. Depois da amamentação, a mãe retorna para suas atividades e ao sair o bebê sente a sua ausência. O cheiro da mãe, o toque da mãe, a voz da mãe, o corpo, não estão presentes. Ele precisará de um tempo necessário para se adaptar. Em um primeiro momento o bebê “não sabe” que a mãe vai voltar. A cada dia que essa situação se repete o bebê vai simbolizando essa ausência e essa presença. Sabemos que essa fase requer um investimento significativo dos pais, da família e da instituição, que irão contribuir para que esse momento de transição seja feito. Passada essa fase e a criança já freqüentando a instituição, de forma satisfatória, os pais não podem esquecer que a vivência da separação permanece e que a criança continua a sentir a ausência dos pais e do seu ambiente familiar, mesmo quando já está adaptada.

Tanto a escola quanto os pais precisam caminhar juntos neste novo momento, tomando medidas que possam acolher, passar confiabilidade e amor para a criança.

Considerando que no fim de semana os pais passam, com seus filhos, mais tempo do que durante a semana é importante ir conversando com a criança sobre a ida dela para o berçário/creche, desde esse momento, além de ir preparando a criança emocionalmente, sempre! Falar sobre a instituição faz com que a criança vivencie este espaço como uma extensão da sua vida. Se a mãe puder estar disponível para o seu filho no momento da ida dele, isto aumenta o grau de confiabilidade e segurança da criança, até para se separar dela. Ela precisa estar sintonizada com as necessidades do bebê. É relevante considerar que se os pais estiverem juntos nesse processo, a adaptação da criança será, muito, mais, satisfatória para ela. Essa “sustentação” dos pais é que vai possibilitar a “sustentação” do bebê. Se o pai puder dar um suporte para a mãe a tendência é que o cuidar se torne mais agradável, mais prazeroso e menos trabalhoso.

É sabido que para os pequenos se separar dos seus pais, do seu ambiente familiar é uma experiência de desconforto, que gera angústia e ansiedade. Por sua vez a criança pode reagir também com indiferença, entristecimento ou agressividade. É dessa forma que ela consegue lidar com as situações de desamparo que são provocadas ao se separar da mamãe. Aqui, o “olhar” da mãe para com o seu filho é extremamente necessário. É esse olhar que vai constituir algo para o bebê, vai acolher seus impulsos e afetos e lhes dar contorno. Olhar não é só olhar com os olhos, é segurar o bebê, acolhê-lo no seu colo de uma maneira sutil, conversar com ele, estar, completamente, disponível para ele, sem pressa de levá-lo logo ou correndo. Poder colocá-lo no colo, o deixar sentir seu coração bater, ficar em silêncio com ele, abraçá-lo, sorrir com ele e para ele, é o momento do encontro, do reencontro que precisa ser marcado para o bebê para que ele saiba que vai reencontrá-los, todos os dias e se sinta confiante e esperançoso no ambiente externo. Dessa maneira o berçário será, apenas, uma continuidade, uma extensão do espaço familiar.

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